terça-feira, 21 de junho de 2011

Despreparo e autoritarismo

Íntegra do artigo publicado no Jornal de Santa Catarina, edição de 22/06/2011, sob o título "Bancarrota Cultural".


Despreparo e autoritarismo

Viegas Fernandes da Costa

Tornou-se inadmissível e bizarra a situação alcançada por Blumenau no que diz respeito à gestão cultural. Não bastasse o desmonte de grande parte das atividades culturais ocorrido nestes últimos três anos (extinção das oficinas culturais, queda do telhado da Escola de Artes, fechamento do Museu Fritz Müller, inoperância da editora Cultura em Movimento, problemas com o pagamento do último Salão Elke Hering etc), e o reconhecimento público de Marlene Schlindwein da sua falta de experiência no que diz respeito à economia criativa (conforme entrevista que concedeu ao Jornal de Santa Catarina, quando do início da sua gestão), agora a sociedade é informada de que uma Conselheira Municipal de Cultura, eleita por seus pares, é processada por desacato pela presidente da Fundação Cultural.
Não importa se Marlene Schlindwein alega que retirou o processo, mais tarde. Interessa que o processo foi aberto, e Marlene recorreu a um dispositivo próprio do coronelismo, impondo censura a uma ativista cultural legitimada pela classe artístico-cultural através de eleição democrática ocorrida na Conferência Municipal de Cultura. Despreparo e autoritarismo são os adjetivos mais brandos que consigo atribuir à presidente da Fundação Cultural de Blumenau. Seu gesto é grave e abre um precedente perigoso porque estabelece uma política da mordaça, quando na realidade precisamos de uma política cultural efetiva e plural.
A responsabilidade por todo este caos na gestão cultural municipal é, como bem apontaram os escritores Maicon Tenfen e Gervásio Luz e o Editorial do SANTA (edição de 21/06/2011), daqueles que indicaram Marlene Schlindwein para o cargo, a saber, o PMDB (seu partido) e o prefeito João Paulo Kleinubing. Vale lembrar ainda que há muitos anos não ocorre concurso público para a contratação de técnicos para a Fundação Cultural, e que um grande número de cargos são preenchidos por pessoas sem habilitação adequada, atendendo apenas aos interesses políticos de ocasião.
O que se espera agora é que o Executivo Municipal se pronuncie a respeito da bancarrota cultural em Blumenau e da ausência de uma política pública para a cultura em nossa cidade. Já de Marlene Schlindwein espera-se o mínimo de inteligência para deixar o cargo de presidente da Fundação Cultural. Afinal, o autoritarismo de seu gesto insensato retirou-lhe o pouco da autoridade que o cargo ainda lhe conferia.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Tenho vergonha da gestão de Marlene Schlindwein

Envergonha-me a atual gestão da Fundação Cultural de Blumenau. Ao processar a ativista cultural Aline Assumpção, Marlene Schlindwein (do PMDB) - a mesma que recorreu aos verbetes da wikipédia para responder perguntas sobre gestão cultural em uma entrevista para o Jornal de Santa Catarina - demonstra sua incompetência para o diálogo democrático. Isto para dizer o mínimo. No camarote estão Pequeno Kleinubing (DEM/PSD) e o desafinado tocador de bandoneón Rufinos (PMDB), responsáveis pela indicação política de Marlene.
Para entender melhor a situação, leia a carta aberta escrita por Aline Assumpção: http://umescambau.blogspot.com/2011/06/carta-aberta-aos-artistas-e-cidadaos.html 

sábado, 11 de junho de 2011

Dois fragmentos

Dois Fragmentos

Viegas Fernandes da Costa

Elke Littig

Na tela pintada por Elke Littig, quatro faces de uma janela refletem uma imagem estranha. Vista à distância, a imagem assemelha-se a uma mancha de lama impregnada a uma superfície acinzentada. Tencionamos, entretanto, aproximação, e o que parecia uma massa disforme de matéria incerta, assume sua dimensão antropocêntrica. É uma figura humana esta que se permite reconhecer quando nos aproximamos e juntamos os quatro fragmentos da imagem. Está de costas para nós, despida, de cócoras, as pernas ligeiramente abertas e as mãos tocando seus pés. A cabeça surge diretamente do tronco como massa coesa que se mistura aos ombros. Está levemente virada para a esquerda, e assim podemos perceber seu perfil: a boca com seu lábio inferior saliente, o nariz aquilino, o orifício ocular, a testa alta. Seu olhar inclina-se para cima, parece mirar algo, e me pergunto: o que busca? Saída? Resposta? Entendimento? Da escápula esquerda surge breve planta de quatro folhas. Apesar de pequena, esta planta com seu verde atrai nosso olhar quase que hipnoticamente. Afinal, há vida brotando da lama (ou da rocha?) em meio à paisagem primitiva. Símbolo, talvez, de certa epifania, diálogo da artista com seu tempo e sua geografia? A vida, apesar de tudo, é persistente. Incrusta-se em nossa realidade e aflora às nossas costas, enquanto bestializados miramos o terror. É sistêmica a perspectiva de Elke Littig ao nos apresentar uma paisagem fragmentada. Porque se fragmenta a realidade em sua tela, é justamente para nos dizer que é na junção dos cacos que se permite a realização do todo. Se se cobre de lama um pedaço de nossa realidade, de imediato a vida se impõe à revelia. Então por isso aproximo-me do quadro, e baixinho sussurro à figura de lama que a vida está consigo, que olhe para si, que toque sua escápula esquerda e sinta a densidade da planta que fez do seu corpo solo fértil para germinar. Sim, Elke Littig me fez sussurrar à figura de lama!  
Marco Antonio Struve
Dos diálogos com o a figura de lama de Littig, detenho-me agora na fotografia de Marco Antonio Struve, intitulada “Frag Mento”. Apóstolo da fotografia, Struve escreve que “é bom ser fotógrafo, um mágico militante recolhendo o tempo”. O tempo, entretanto, tal qual a realidade, não se permite à captura fácil, e quando esta ocorre, é sempre uma captura parcial, como que se alcançássemos a perna da lebre em sua toca profunda, e essa perna fosse toda a lebre, porque o restante do seu corpo esvai-se pelo incógnito do buraco onde se esconde. Struve busca assim, com suas lentes e objetivas, preservar um tempo e uma realidade fluídos até mesmo na materialidade da sua arte. Arte esta fotográfica ou escultória? “Frag Mento” é transformação sobre transformação. Atento aos detalhes e ciente de que a paisagem é a reunião dos mínimos que nosso olhar e sensibilidade são capazes de reunir em imagem reconhecível, Struve volta sua atenção para o detalhe quase imperceptível, para a parte de um todo, e assim constrói ilusionismo (como ilusória toda realidade), como um mágico, um prestidigitador, que com elementos ordinários nos permite o deslumbramento do extraordinário.
“Frag Mento” é um fragmento da escultura “Transformação”, de Guido Heuer (exposta em praça pública no município de Blumenau). Fragmento transformado também pelo fotógrafo, quando retirado de seu todo original e manipulado através da exposição de luzes e de diferentes temporalidades. O resultado é essa imagem abstrata, repleta de curvas e luminosidades, metal envolvente, insinuante. Verdadeiro poema que flerta com as fronteiras entre fotografia e escultura.
Os dois trabalhos de Marco Antonio Struve e Elke Littig que comentei aqui podem ser vistos na exposição “OITO - Artes Visuais Indaialenses”, que reúne também trabalhos de Dolores Thonern, Homero Moser, Iria de Freitas Bueno, Luiza Schlegel, Nanci Merize Moskorz e Sidney Luiz Saut (importante fotógrafo brasileiro que se dedica à fotografia monocromática, como as três fotos que apresenta na exposição, construídas a partir da técnica da oleografia, comum no século XIX e atualmente quase extinta). Diferentes linguagens e estéticas são apresentadas nesta mostra de artistas indaialenses, realizada no “Consórcio Intermunicipal do Vale do Itajaí”, em Timbó. A exposição permanece aberta até o dia 30 de junho.

Sidney Luiz Saut

sábado, 4 de junho de 2011

Notas sobre a literatura catarinense 07: Uma vaca em nossa literatura

Uma vaca em nossa literatura

Viegas Fernandes da Costa*

Há muito que a discussão sobre a existência de um gênero literário que possamos chamar de literatura infantil se tornou inócua. Haja ou não este território, importante é perceber a existência de textos tão especiais que são capazes de dialogar tanto com um público adulto e extensamente letrado, quanto com um público que inicia suas descobertas no mundo do verbo grafado. E não é difícil reconhecermos que um livro capaz de prender a atenção de uma criança, por natureza repleta de uma saudável, irrequieta e exigente curiosidade, torna-se também leitura altamente recomendável a nós, adultos, ainda que não tão curiosos.
Neste território não delimitado da literatura infantil, grandes clássicos já foram escritos. Para ficarmos apenas com os mais conhecidos, podemos citar “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, “O menino do dedo verde”, de Maurice Druon, e “O menino maluquinho”, do nosso Ziraldo. São tantos os leitores que já se aventuraram com estes meninos da ficção, que difícil é encontrar alguém que no Ocidente não os conheça.
O Brasil, por sua vez, possui também rico e vasto acervo de autores que dedicaram suas penas à literatura cuja linguagem e universo pretendem atingir fundamentalmente nossas crianças e jovens. Além do já citado Ziraldo, nomes como o de Ana Maria Machado e do controvertido Monteiro Lobato são presença obrigatória em qualquer biblioteca infantil. Autores cujo texto respeita a inteligência dos seus leitores, não se rendendo às fórmulas fáceis de uma literatura puramente mercadológica, despreocupada com a qualidade da fábula e com as possibilidades que o “gênero” pode oferecer. E é importante que se diga isto, porque atualmente proliferam nas livrarias – e até mesmo sob semáforos – editores e autores que enxergam nos “livros para crianças e jovens” produtos de lucro fácil e rápido. Em Santa Catarina não é diferente. Na busca de autoria e alguma renda, diversos escritores vêm publicando, seja através de editoras comerciais, seja através de edições próprias ou até mesmo financiados por fundos públicos de cultura, livros de qualidade duvidosa, com textos e ilustrações pobres em originalidade, grotescos erros orgráficos e gramaticais e narrativas confusas. Aproveitam-se estes autores e editoras da boa-fé de pais convencidos pelas campanhas de fomento à leitura e do descaso de uma parcela de educadores, para despejar no mercado os refugos da nossa indústria cultural.
Neste contexto, é sempre reanimador quando nos deparamos com novos autores que tratam com respeito seus leitores e dignificam a literatura. É o caso, por exemplo, de Pochyua Andrade, que recentemente lançou seu primeiro livro, “A vaca minuciosa” (Editora Nova Letra), com ilustrações de Nestor Jr, artista cuja obra chama atenção no atual cenário catarinense das artes plásticas.
Pochyua Andrade é natural de Recife (PE), mas está radicado em Santa Catarina desde sua juventude. Cursou Música na Universidade Regional de Blumenau, cidade em que reside, e é professor na Fundação Cultural de Indaial. Como músico e compositor, lançou em 2008 seu primeiro disco, intitulado “Pochyua e Cambaçu”, fortemente influenciado por estilos nordestinos, como o frevo e o maracatu. Suas influências de origem, entretanto, não o descolam da realidade local em que fixou residência. A arte de Pochyua é dialógica, e neste sentido “A vaca minuciosa” é obra emblemática. Com sua narrativa em terceira pessoa, tão comum à literatura infantil clássica, a fábula tem os pés fincados na realidade do Vale do Itajaí, sem entretanto descuidar da universalidade.
Ao contar a história de uma vaca cheia de personalidade e ideias improváveis e sua proprietária, a menina Josefina, Pochyua trata também de temas universais como o belo, o sentimento de pertencimento, a alteridade, a perda e a morte. Estes temas, entretanto, estão inseridos na fábula com leveza e naturalidade tais, que de forma alguma a narrativa lembra o panfletarismo ou o moralismo de muitos textos infantis que circulam por aí. Podemos ilustrar o que afirmamos com um trecho da obra, momento em que Minuciosa – a vaca - reflete sobre as mudanças provocadas na paisagem por uma grande enchente (e aqui o autor se vale de um dos principais símbolos do imaginário coletivo da região: as cheias do rio Itajaí-Açu), e nas pessoas, quando da morte do pai de Josefina: “A chuva sem fim mudou a montanha, o tempo sem fim mudou a montanha e a viagem do pai de Josefina para o céu mudou a montanha também. O mundo de cada um, que parece não mudar nunca, de repente muda e vira outro mundo. A gente deve estar sempre preparado para o outro mundo.” Interessante é observar que, na perspicácia sistêmica de Minuciosa, a morte de uma pessoa interfere também na paisagem. Afinal, nós humanos somos também parte da paisagem, integramos uma ecologia, mas não somos, entretanto, os únicos a transformar o mundo. Um mundo que não se constitui exclusivamente de racionalidades, mas também de acasos e sensibilidades. E é com grande sensibilidade que Pochyua aborda tema tão complexo, e muitas vezes interdito, como é o caso do tema da morte que, segundo a fala do tio de Josefina, “nos dá a vida que os nossos olhos escondem...” Sensível também a maneira como Minuciosa reflete a respeito das transformações sofridas pela montanha depois das intensas chuvas e cheias: “a beleza da montanha já era outra beleza”. Onde, se não na arte, é possível tratar de evento tão traumático quanto o das tragédias socioclimáticas – e que o Vale do Itajaí conhece tão bem – como possibilidade de construção do novo? Pois o que Minuciosa nos ensina é isso, que o fim de uma beleza é a possibilidade de outra.
Para além do que já dissemos, Minuciosa é uma vaca curiosa e dada a filosofias – como toda criança. Filosofias que na versão do narrador ficam sendo chamadas de pensamentos improváveis (mas não impossíveis). Eis alguns exemplos: “A semana precisa somente de dois dias – pensava a vaca – um para saber que dia é hoje e outro para saber que dia foi ontem e que dia será amanhã. A vaca batizou os seus dois dias de ‘dia sim’ e ‘dia não’.” Ou ainda: “A montanha é o mundo de todas as coisas vivas que moram lá.”
Os pensamentos de Minuciosa nos ensinam, por exemplo, que novas descobertas indicam novos caminhos. Talvez por isso pise “devagar no lugar novo, para conhecê-lo devagarzinho, que é como devemos conhecer as coisas novas, sem pressa”. E, ao descobrir um pedacinho do paraíso (talvez algum recanto real da Nova Rússia, localidade no sul de Blumenau onde Pochyua concebeu os primeiros mugidos de sua vaca), soube que sempre poderia voltar, “pois sempre podemos voltar para os lugares em que nos sentimos em casa”.
Com seu texto intenso e repleto de sutilezas, e o traço lúdico e cuidadoso de Nestor Jr (ilustrações que mereceriam um texto à parte, tão especiais que são), “A vaca minuciosa” representa um hausto novo e esperançoso para nossa “literatura infantil”. Capaz de dialogar com o universo infantil e refletir a respeito das particularidades do tempo presente, este livro de estreia de Pochyua Andrade é de leitura altamente recomendada, principalmente porque não se rende às fórmulas fáceis e porque trata com inteligência seus leitores.